Semana de Chi Kung e Voz na Toscana.

 

singing-in-the-rainEmbora na mente esta ligação para mim fosse bastante directa pois no Da Cheng Chuan existe um nível em que se trabalha o som, as aulas de voz na prática têm se revelado uma surpresa desafiante.

 

A teoria.

 

Um dos objectivos deste sistema é levar a energia ao canto mais infimo das  células do praticante. As pernas e os braços são areas do nosso corpo que são bastante transparentes na forma como devem ser trabalhadas.

 

No primeiro nível de trabalho são as posturas – Zhan Zhuang. Aqui pouco a pouco o corpo encontra a sua postura natural. A vitalidade circula então pelo corpo que vai pouco ficando livre de tensões e bloqueios. 

 

No segundo nível trabalha-se a circulação dos braços (Shi Li) e como a força vital é trazida da terra até aos membros superiores. A forma como ela se expressa nas mãos determina esta qualidade. 

 

No terceiro nível trabalhamos os passos (Zhou Bu) e aqui caminha-se e ensaia-se até que ponto o corpo como unidade se consegue deslocar no espaço. 

 

“Até aqui tudo bem”. 

 

E a cabeça?

 

Pois.

 

Na prática, nos primeiros três níveis de trabalho do Da Cheng Chuan a intenção trabalha o ouvir ao longe o ver ao longe. Olha-se como quem olha para o horizonte. Aqui em Toscana é fácil mas quando se regressa à cidade e se tem a janela virada para o prédio vizinho requer mais atenção e concentração. Ouvimos como quem ouve a Chuva distante a cair atrás de nós. Também se pode tentar cheirar cheiros distantes ou sentir os cabelos do couro cabeludo. Isso vai activar a cabeça e os órgãos dos sentidos. 

 

A voz assim vem desempenhar um papel importante pelo facto de pelo som ser activado o “5º ramo” do nosso corpo: garganta e cabeça. De uma forma mais estrutural.  

 

E a longo prazo é um passo importante para quem quer aprofundar este sistema.

 


 

O admirável mundo da voz….

 

O percurso para os profissionais de canto é oposto ao do Chi Kung pois inicia-se com o estudo da voz e depois com a prática [alguns] percebem a relação próxima do som com o corpo. 

 

Assim, estes dois mundos acabam por se tocar de uma forma muito harmoniosa. 

 

O som manifesta-se no corpo do cantor tal como a vitalidade se manifesta no praticante de Chi Kung.  

 

Mas existem mais pontos em comum:

 

No Chi Kung tentamos que a vitalidade flua livremente pelo corpo.

 

No Canto procura-se que o som sobre a forma do ar que circula se manifeste de uma forma o mais desimpedida possível. E as barreiras naturais que o som encontra são as mesmas que o Chi Kung encontra – Ombros tensos, falta de relaxamento na anca e nos membros inferiores etc etc… Quem pratica sabe. 

 

A energia que é expressa pelo Shi Li deve ser feita sem o praticante sair do seu eixo e sem haver perca na potência no movimento. Muita força poderá significar perca do alinhamento, um alinhamento demasiado sólido pode significar pouca expressão nas mãos. 

 

Também a voz de quem canta deve encher uma sala sem que o eixo do cantor se altere. Sem o pescoço ir para a frente sem inclinações no tronco etc. etc… quem canta sabe. 

 

No Chi kung a intenção é o que dá cor à pratica. Sem intenção parecemos umas árvores mortas, de pé mas sem vitalidade. 

 

O cantor deve não só ressoar por todo ele como um instrumento de caixa mas este som deve ter uma direcção, deve haver brilho e intenção. Tal como no Chi Kung essas qualidades são as mais subtis e que ocupam uma boa parte do tempo do praticante e do cantor a longo prazo.  

 

Quando queremos mais leveza e relaxamento nas mãos descemos mais profundamente nas pernas criamos um enraizamento maior.

 

Quando se canta é importante que os sons agudos – mais leves, que expressam mais leveza tenham mais enraizamento corporal que nos sons graves – mais pesados. 

 

A voz com o Chi Kung acabam por formar uma combinação harmoniosa não só a nível postural mas também na atitude mental comum que é necessária para a prática destes dois progrida.

 

Existem camadas sociais onde o Chi Kung e/ou o Canto podem ser muito benéficos. São camadas maioritariamente afectados por questões posturais e em comum tem uma coisa: Têm de mostrar que sabem e que são eles que o sabem: professores, formadores, actores, músicos, seguranças, função pública, advogados, polícias, militares, cargos políticos de desgaste rápido, quadros de empresas que lidam com situações de risco, profissões ligadas ao ramo da saúde incluindo massagistas e acupunctores… entre outros. 

 

Uma das frases que foi dita no primeiro dia pela professora de canto foi que “o cantor deve trazer o público a si e não o contrário”. 

 

Ou como diria o Mestre Zen S. Suzuky “let things come to your hearth”.  

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