
Foto: Adnan Yahya
Conta-se que o Carlos Lopes quando lhe perguntaram se era difícil correr a maratona respondeu que não era difícil, o difícil era calçar os tenis de manhã todos os dias para treinar sozinho.
O praticante de Chi Kung ou de outra arte confronta-se muitas vezes com esta questão a motivação para treinar.
O mestre Fu Sheng Yuan disse uma vez que a prática de Tai Chi Tai Chi directamente ligada com o desenvolvimento humano. Assim nos primeiros 2 anos prendemos a caminhar depois a andar, a correr, começamos a falar e surge entretanto a idade dos porquês. Mais tarde aos 6 anos começamos a aprender a ler e a escrever, aos 12 anos começa a adolescência e pensamos que sabemos tudo e contestamos tudo, aos 20 criamos uma certa independência, aos 30 atingimos alguma maturidade e dos 40 para a frente começamos a refinar a nossa arte.
Penso que quando se observa o treino como uma coisa orgânica e que tem a ver com a própria vida se torna mais simples e motivador.
Comer uma vez por semana não permite que a maioria de nós sobreviva. Mesmo que essa refeição seja o mais refinada possível cozinhada por uma chefe de renome, alimentos orgânicos selecionados, com uma orquestra de músicos a tocar de fundo sobre uma paisagem fantástica.
Essa refeição não ia ajudar muito pois no resto da semana estaríamos cheios de fome, talvez motivados com a próxima refeição mas a longo prazo seria incomportável.
Com o treino o mesmo acontece. Se apenas tivermos dois ou três treinos por semana não nos conseguimos “alimentar” ou pelo menos, tirar total benefício daquilo que praticamos.
Mas mais uma vez como a criança até sabermos nos alimentar e procurar as nossas horas preferenciais poderá levar algum tempo. No passado, os alunos ficavam na casa do professor e isso permitia que como “crianças” fosse-lhes criado uma rotina “alimentar” até se tornarem autónomos na sua prática.
Este até acontecia geralmente com a morte do professor. Quando isto acontecia alguns alunos ficavam mais aptos que outros em se “alimentar” de acordo com as suas necessidades.
Os tempos hoje são outros e esta situação não é presentemente a mais prática.
Daí o aluno tem de praticar em casa sozinho. Para haver evolução tem de haver prática individual – digo isto correndo o risco de ficar com a classe reduzida a metade ou a menos de metade para o ano.
Nesse sentido resolvi colocar algumas idéias fruto da minha prática e observação.
Ter uma idéia clara daquilo que é preciso treinar. Uma folha de papel basta. Escrever numa folha aquilo que querem treinar. Não fiquei só pela idéia. Materializem-na. Mesmo que saibam que são só os três aquecimentos. É importante dar uma base física à vossa idéia. Podem até comprar um pequeno livro que dê para andar convosco onde vão apontando os vários exercícios que vão fazendo. Os mais avançados podem até criar um plano de treino para a semana toda e ir ajustando pouco a pouco com o tempo. Com o passar dos dias a vossa idéia de treino fica mais clara e sólida.
Estabeleçam uma meta. Os Chineses afirmam que um exercício produz os seus benefícios mais visíveis ao fim de 100 dias. Criem uma meta. Mesmo em conjunto com outros alunos definam uma meta e troquem experiências.
Não deixem passar a altura de praticar. Regra de ouro das práticas energéticas nunca deixem passar uma boa altura para praticar pensando que o podem fazer mais tarde. Se têm 20 minutos de manhã usem-nos mesmo que pensem que à tarde vão ter uma hora.
Revejam apontamentos ou livros. O sistema de Zhan Zhuang Chi Kung é dos sistemas que é rico em informação prática e teórica. O Mestre Lam Kam Chuen tem quatro livros que são bastante abrangentes sobre este sistema. Dois deles estão traduzidos em Português. O Caminho da Cura e o Caminho da Energia. Este tipo de informação ajuda a complementar o treino. Como é obvio 20 minutos de leitura não substituem 20 minutos de treino.
Pensem Chi Kung usem a criatividade. Todas as posturas podem ser aplicadas no dia a dia, quando estão de pé em situações de espera ou mesmo quando estão em situações de movimento. Com o treino percebe-se que muito do nosso movimento no dia a dia tem na sua raiz as posturas que treinamos nas aulas. É uma questão de criatividade e observação do momento. Uma das recomendações mais curiosas é feita pelo Mestre Cai Songfang – “se a conversa vos está a interessar mantenham 70% da atenção na conversa e 30% na postura se não está invertam esta proporção”.
Paciência e aceitação pelo nosso processo. Existem tempos que se treina mais outras menos. Mas se abraçarem o treino como um processo vosso este estará sempre convosco apesar das dificuldades que podem surgir pelo caminho. O treino está ligado com a vossa identidade respeitem-no e cultivem-no à medida que vão evoluindo nele.
Neste momento vejo o Mestre Lam duas vezes por ano com quem passo dois fins de semana e houve alturas no início em que treinava apenas três semanas por ano com Peter em Amsterdão. O que me atraiu quando tomei contacto com este treino foi que não requer aprender formas ou movimentos complicados, requer apenas que saibamos estar e tenhamos paciência e confiança no nosso próprio processo de desenvolvimento energético. O que faz do nosso treino um treino único e de nós seres individuais.
Estamos a trabalhar directamente com a nossa energia vital quando fazemos Chi Kung e independentemente daquilo que façamos para a regular e entrar em contacto com ela, apenas nós o conseguiremos fazer mais ninguém o pode fazer po nós.
e…
Como diria Fukushima Kodo no seu Livro “Meridian Therapy” “é uma pena estar a ler este livro pois significa que não está a praticar”.
Ótimo artigo. Também sou praticante, caí nesta página por acaso, mas muito bom, me motivou a treinar mais.