Parar com qualidade.

meditationNow to stand still, to be here,
Feel my own weight and density!(…)
Now there is time and Time is young.
O, in this single hour I live
All of myself and do not move.
I, the pursued, who madly ran,
Stand still, stand still, and stop the sun!

May Sarton – “Now I become myself”.

Na tradição da Medicina Tradicional Chinesa um paciente quando chegava ao gabinete do médico deveria permanecer na sala de espera o tempo que demorou a fazer o caminho até ao consultório. As pessoas viviam perto e uma hora de caminhada significava uma hora de espera para que no final dessa hora “todo o paciente” estivesse lá. O Corpo, a Mente e o Espírito. Muitos pacientes quando vinham de longe viajavam um dia antes, para no dia seguinte estarem no estado que é necessário para haver uma transformação – Um estado de presença total.

Este estado de presença atinge-se pela paragem consciente – o chegar.

Este “chegar” é muito importante. Muitas pessoas preferem chegar c0m alguma antecedência a uma aula, a uma reunião, a um tratamento. Em linguagem comum – ambientar-se.

A ambientação só é possível quando se pára, respira, se sente o chão debaixo dos pés e se sorri.

Mesmo que por instantes.

Por detrás da actividade constante existem espaços que quando reconhecidos permitem sentir essa chegada, essa ambientação.

Estes momentos devem ser tratados como pérolas ou algo muito valioso porque é isso que eles são.

Permitem paragens de qualidade.

E a quantidade aqui não é relevante.

Se no fim do dia existe cansaço ou esgotamento é porque não está a haver acesso à quietude, falta a polaridade com movimento  e para se criar energia é necessário criar polaridade.

“Stillness is the mother of all movement” – Wang Xiang Zhai

Quando entrar no metro, no autocarro, no comboio, ou em outro transporte público não olhar para o telemóvel, não ler o jornal ou o livro, não ligar o MP3. Se faz viagens longas tire pelo menos cinco minutos para sentir que chegou. Nas viagens muito longas pare de quando em vez para descansar e sentir onde está.

Se utiliza o carro em cada semáforo vermelho não mude de canal do rádio, não olhe de novo para o telemóvel aproveite para sentir como está sentado, a sua postura, o que o rodeia de uma forma consciente.

“Quando trabalho, trabalho, quando durmo, durmo”, Se está ao computador evite saltar de uma aplicação par a outra. Mantenha o programa de email, messager e browser fechados e só os abra em caso de necessidade vital, não o faça porque já está cansado do que está a fazer. Está cansado do que está a fazer descanse não crie mais tarefas. Levante-se, alongue, vá até à janela, respire fundo.

Não inicie logo a refeição, pare, olhe e cheire antes de saborear, coma sempre que puder sentado. Em algumas casas ainda é  habitual uma oração antes de se iniciar a refeição para criar esta paragem. Muito importante pouse os talheres entre cada mastigação, não leia, nem veja televisão. Descubra porque é que George Ohsawa chamava o mastigar o “melhor exercício do mundo”.

Faça do chegar a casa um hábito sagrado, antes de se lançar para a televisão, telefone, email ou jantar. Sente-se ou deite-se no sofá, coloque se preferir musica e sinta que chegou a sua casa… mesmo que esteja temporariamente ou permanentemente a viver em casa de alguém. Se não for possível faça os últimos metros até casa de uma forma consciente. Ou quando for colocar a chave na porta ou a subir no elevador pare, respire, sinta o chão debaixo dos pés e sorria.

Quando cozinhar evite o modo multi tarefa. Nos tempos mortos não saia da cozinha, há sempre algo para fazer na cozinha lavar louça, separar lixos, arrumar o frigorífico, preparar outras partes da refeição, pôr a mesa. Esteja 100% na acção.

Quando for dormir não leve o computador para a cama nem tenha televisão no quarto, desligue o telemóvel. Tenha o quarto o mais minimalista possível.

Estas paragens de qualidade podem também ser feitas nos fins de semana, nas férias ou em retiros.

Mas será que é preciso que chegue o fim de semana para descansar? ou as férias para se ter paz? ou os retiros para se encontrar o ritmo individual?

A paz deve estar presente em cada acto, tal como a quietude e o ritmo individual estão disponíveis em cada momento.

A grande maioria dos mestres de Chi Kung ou Tai Chi Chuan do passado não fazia retiros, não tinham férias, nem fins de semana. Trabalhavam, tinham vida familiar e obrigações sociais. Mas à parte disso davam importância à arte de parar com qualidade.

Pouco a pouco… dia após dia… sem pressas.

É importante que todo o praticante desenvolva esta característica com uma persistência natural e consciente.

No início poderá sentir que a quietude causa mais desconforto que o movimento.

… se for esse caso parabéns!

O “chegar” começa aqui, no agora, independentemente se é Segunda-feira, se o regresso de férias foi na semana passada ou se vai entrar no emprego daqui a 10 minutos.

Pare, Respire, Sinta o chão debaixo dos pés e Sorria.


2 Responses to Parar com qualidade.
  1. egoitz
    November 22, 2009 | 13:29

    Que facil es parar
    pero que dificil es estar parado.
    Que necesario es moverse
    pero que dificil es sentir cuando no hay que hacerlo
    Ahora paro, respiro, escucho y siento
    Voy para adentro y te encuentro.
    Al fin nos conocemos.

    Egoitz

  2. Jorge Falcão
    November 22, 2009 | 19:50

    O “Pare, Respire, Sinta o chão debaixo dos pés e Sorria”, creio ser um convite a estar presente – ou com presença – no momento… um convite a desistir de estar ausente.

    E o que motiva estar ausente ou sem presença ? …a não atenção ao momento motiva a ausência de presença.

    A mente (o “macaco” que salta de pensamento em pensamento sem ter recebido tal ordem) dificulta a atenção ao momento presente … esse “macaco” impede a plena atenção, a plena presença.

    Ou seja, Parar, Respirar, Sentir o chão debaixo dos pés, e Sorrir … parece-me um óptimo conselho para ganhar presença ou estar presente.

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