(R)evoluir

Em Amsterdão à 2 anos atrás estava numa secção com cerca de 50 metros quadrados só com livros de auto ajuda e perguntava a mim mesmo porque é que as pessoas do mundo não eram já todas iluminadas e em depressões, pessoas de sucesso, pais formidáveis com filhos modelo, pessoas não dependentes, sem raiva, focadas, produtivas e com uma esperança média de vida de 150 anos.

Para mim dá que pensar que em 2008 os americanos tenham gasto 11 BILIÕES de dólares em livros de auto ajuda e cursos.

No entanto, ainda hoje a sensação que tenho quando olho para os livros que comprei sobre variados assuntos ou, quando os vejo nas montras é que ao adquirir um livro desses é quase como adquirir um livro de receitas culinárias na esperança de só pelo facto de o ler se vai ficar sem fome.

Os livros de auto ajuda na maior parte das vezes revelam-se mesmo como livros de culinária, o resultado final nunca é tão bom como o da foto ou falta um qualquer ingrediente para que a receita fique perfeita – óleo de sementes de pêssego do Paquistão por exemplo.

Há muito tempo tive um sonho em que Cristo e Buda apareciam e diziam – “Parem de nos seguir nós encontramos o nosso caminho encontrem vocês o vosso.”

A realidade é simples os “clicks” mentais que foram dados pelas pessoas que escrevem esses livros e vendem a sua felicidade e o seu sucesso – salvo raras excepções,  esses mesmo “clicks” não serão dados por quem os lê.

Porquê?

“A vista da montanha é diferente para quem a sobe a pé” – Provérbio tradicional.

O corpo da experiência vivida. Muitos dos autores passaram por processos individuais quer física quer mentalmente e isso permitiu-lhes o “click”. Estes processos não são apenas físicos nem mentais são processos que integraram estes dois mundos. Para ter também esses clicks não basta apenas preguiçosamente ler a resposta do segredo da felicidade sentado no banco do autocarro ou no sofá, esperando ter os mesmos benefícios sem passar pelo processo completo.

Mas a montanha está ao alcance de todos.

Subir essa montanha significa o salto para o contacto com a essência de cada um. Significa a vontade de revolução interior de mudar e ser o protagonista principal da própria história.

No passado esta capacidade de mudança e de noção do ser individual era criada pelos rituais de passagem. Nestes rituais o adolescente era colocado em situações em que só o reconhecimento e acesso às suas características individuais o permitiria sobreviver às provas que  lhe eram impostas.

Hoje em dia não há muitos rituais de passagem.

uhm… talvez a carta de condução :)

Algumas características essenciais de um revolucionário que deseje operar uma mudança.

Criatividade e visão para desenhar o seu próprio projecto e flexibilidade para o adaptar à realidade. A primeira fagulha de revolução geralmente é silenciosa. Necessita de cuidado na sua germinação. Regra de ouro: se estão empenhados numa revolução interna ou externa não partilhem os vossos planos iniciais nem no twitter, nem no facebook…  com ninguém.

Coração, a revolução deve ser um acto de amor, e uma revolução interna passa sempre pelo coração – na Medicina Chinesa é o Coração que organiza a realidade como é percepcionada pelo observador. Um coração calmo e feliz vê de certo o mundo e o seu potencial de uma forma diferente.

Receptividade, para o movimento não ser apenas para a frente, não ser só uma atitude de criação e de movimento mas também uma atitude de escuta e relaxamento, todo o revolucionário deve ter como peça fundamental um sofá ou um sitio seguro para cultivar essa receptividade – uma cama, uma almofada de meditação.

Foco, Se a nossa revolução for genuína e não for um acto mental o foco muda – naturalmente. A televisão, o computador e outras distracções modernas passam  a ser nossos instrumentos e não o oposto. O foco não é uma coisa rígida nem pesada é fino, leve e flexível como a espada do samurai.

Coragem para viver aquilo que se desenhou. Como regra geral aquilo que se deseja e na qual se investe de forma incondicional a nossa energia acaba por acontecer – mais tarde ou mais cedo. É importante perguntar no início: será que é isso mesmo que se deseja e que se quer viver?

Integrar corpo e mente nas doutrinas espirituais ou de desenvolvimento humano, o corpo e mente estão integrados na busca diária de quem deseja a mudança. E a mudança ocorre se o corpo e a mente estiverem no mesmo processo. Não vale a pena estar a criar energia física se de depois esta não é utilizada com sabedoria, nem criar sabedoria se o corpo não pode dar seguimento à vontade da mente. Rachar lenha e natação ou desportos radicais  é um óptimo complemento para a meditação assim como a leitura de escrituras sagradas deverá ser um complemento para quem faz artes marciais ou desportos de competição.

Os clássicos são a melhor referência bibliográfica nestes processos. Quem é que se lembra do livro How to Win Friends and Influence People? foi um dos primeiros livros de muitos que se seguiram do género, hoje está desactualizado. Onde estarão os ratos do quem mexeu o meu queijo daqui a 50 anos?

Quando olharem para um montra e virem um livro de auto-ajuda… sorriam.

Sugiro uma lista de livros alguns já testados ao longo de milhares de anos e que como clássicos continuam a tocar na essência daquilo que são os processos de revolução individual. [por ordem alfabética para não ferir susceptibilidades]. Estes livros são autênticos carros de luxo e como tal é necessário ter mãos para os conduzir. Remetem qualquer outro livro de auto-ajuda actual para a secção de literatura de cordel.

Os Analectos – Confucio

A Bíblia

O Bhagavad Gita

O Caminho do Bodhisattva – Santideva

O Corão

O Dhammapada

Histórias tradicionais e obras da mitologia grega

O I Ching – O livro das transformações

O Livro Tibetano dos Mortos

Tao te King – Livro do Tao

Yojokun

Exercício para testar o grau de satisfação do momento e a necessidade de (r)evoluir e criar pontos de partida:

Material – Caneta e papel.

Se fosse possível e não houvesse qualquer tipo de consequência que mudanças faria na minha vida?

One Response to (R)evoluir
  1. Tânia Camacho
    January 25, 2010 | 17:59

    Muito obrigada pelas tuas palavras. O texto é fantástico. Gostei bastante de te ler. Beijo

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