Este artigo vem na sequência do artigo – Alimentações alternativas – Test Drive, Parte I. Aviso que este é um post grande – Tentei que ficasse o mais pequeno possível mas revelou-se uma missão impossível.
Espero que vos dê tanto prazer a ler como a mim me deu escrever.
Quando decidi mudar de alimentação à mais de 12 anos atrás de uma alimentação de bifes, queijo e salsichas ao pequeno almoço para refeições à base de soja granulada, arroz e massa branca, saladas de alface com tomate e queijo fresco, cereais das marcas saudáveis que a televisão anuncia regados com leite de vaca e iogurtes da melhor qualidade ao pequeno almoço, muita coisa se passou. Uma delas é que passei esse ano sempre doente e com pouca energia, a asma que tinha não diminuiu pelo contrário, tive crises de hipoglicémia grandes, o meu humor tornou-se instável e insuportável, continuava a comer doces e a consumir álcool e não senti nenhum estado de graça durante este período.
Percebi um ano depois quando entrei para o curso de Medicina Tradicional Chinesa [MTC] e mais tarde quando tive acesso ao Instituto Macrobiótico de Portugal que havia algumas coisas a reparar e que esta ideia de deixar de comer carne não é só começar a comer vegetais e pronto já está! Mas que qualquer tipo de alimentação necessita de tempo de adaptação, estudo e reflexão.
Na minha experiência como especialista de MTC existem algumas razões porque as pessoas decidem mudar de alimentação.
- Questões de saúde. Todas as correntes alimentares tradicionais têm vertentes terapêuticas que são quando bem utilizadas muito eficazes.
- Auto descoberta – Criar novos padrões e abertura a novas tendências.
- Factores económicos. Não me refiro apenas a questões monetárias quando se evolui de uma alimentação processada para uma alimentação mais tradicional existem duas situações que devem ocorrer: Mais energia e menos custos.
- Mudança de paradigma de vida e procura do que é essencial. A alimentação modifica o sangue, o sangue alimenta o corpo e a sua constituição química está directamente relacionada com a forma como pensamos. Coloco sérias dúvidas que seja possível fazer uma mudança profunda e estável da visão do mundo ou da vida se não se mudar a alimentação. Sobre a alimentação e emoções pode ser importante consultar a obra de Katlhleen Desmaisons.
- Modas…. dá-me arrepios só de pensar nisso.
- Preguiça. Às vezes é mesmo só a única razão, na maioria das vezes com péssimos resultados.
Mudar para um alimentação tradicional exige na maior parte das vezes criar espaço para que essa mudança ocorra. Tem que ser investido tempo. Não tem que ser tudo num ano ou dois ou três mas tem que gradualmente haver alguma dedicação a este processo. Lamento mas ser vegetariano não é só comer saladas ou pedir batatas fritas regadas com mostarda nas lojas de fast food. Ser crúdivoro não só comer fruta e beber sumos assim como ser macrobiótico não é só comer arroz integral 365 dias por ano mastigado 200 vezes cada garfada.
Considere-se uma alimentação tradicional.
- Os alimentos estão de acordo com as estações do ano – tradicionalmente não há morangos no Natal
- Consome-se alimentos na mesma latitude geográfica ou provenientes da mesma área de residência – A fruta tropical e o açúcar não existiam não eram produzidos na Europa.
- Alimentos adaptada a cada tipo de pessoa segundo o seu tipo de actividade, idade, sexo e estado de saúde.
Estas questões sempre estiveram presentes nas civilizações mais tradicionais esses povos comiam o que existia na estação em que estavam, no local onde habitavam, se trabalhavam mais comiam mais, se trabalhavam menos comiam menos e se estivessem doentes ou não comiam, ou comiam uma dieta mais apropriada ao seu estado de saúde.
Independentemente se comiam animais, se cozinhavam os alimentos, se eram nómadas ou sedentários estes factores estão sempre presentes nos povos das culturas mais tradicionais.
Quando estes tipo de de alimentações são transplantados para os dias de hoje vão encontrar na maior parte das vezes cabeças e corpos totalmente desadaptados, disfuncionais e alheios ao que será a tradição alimentar da raça humana.
E por isso existe uma verdade que temos de ter em conta “não é por ter resultado com o povo X ou Y com a pessoa Z ou W que vai resultar connosco” porque muitas vezes esses povos viveram há muito tempo em em contextos de cultura, localização geográfica e temporal muito diferentes das actuais.
Para além dos benefícios reais que estes tipos de alimentação têm, existem alguns factores que têm de ser tidos em conta quando se muda de alimentação. Estes tipos de alimentação são ao mesmo tempo ciências e artes como tal necessitam de estudo e dedicação. Têm de ser praticados na totalidade. Não adianta se assumir ser vegetariano quando se come açúcar e vegetais com pesticidas ou macrobiótico se só se frequenta restaurantes que servem este tipo de alimentação e o que se aprecia mais são as sobremesas ou então crudívoro quando se utiliza ao mesmo tempo “super alimentos” e suplementos para fornecer “energia extra”.
Não poderá ser responsabilizada qualquer tipo de alimentação ou corrente alimentar se não existe um conhecimento pelo menos básico da história, cultura e contexto onde ela é ou era praticada.
Aviso: A expressão “eu como aquilo que o meu corpo pede pode danificar gravemente a sua saúde”
Poderia descrever os efeitos de cada um dos tipos de alimentação e honestamente a minha ideia desta segunda parte seria dissecar vários tipo de alimentação mas facilmente percebi que explicar cada tipo de corrente prós e contras facilmente se transforma num livro e que isso vai para além do âmbito do blog devagar.org.
Fico muito contente se este post já abrir espaço para novas reflexões e novas procuras de quem o lê.
A minha conclusão é que qualquer uma destas alimentações [vegetariana, macrobiótica e crudívora] têm vantagens quando são feitas de forma correcta e com sabedoria quer teórica quer prática de outras pessoas que passaram pelo mesmo processo – podem ser consultados os livros mas o mais importante é falar ou conhecer pessoas ou grupos ligados a estas correntes.
Aviso: Não confiem em ninguém que não tenha feito algum tipo de alimentação alternativa de forma consistente pelo menos durante 10 anos.
Assim, resolvi referir dez pontos que poderão servir de alerta para que algo tem de ser direccionado e re-equacionado em termos de padrão alimentar. Independentemente do tipo de corrente que se segue.
- Falta de energia e libido
- Agitação física e mental
- Mãos frias e pés frios ou húmidas/os
- Diarreias ou prisão de ventre
- Atitude demasiado mental perante a comida – contar calorias, deixar-se guiar rigidamente por livros, “bíblias” ou correntes de pensamento
- Só falar de comida em tertúlias infindáveis em que os únicos a serem donos da razão “somos nós”.
- Tornar-se sectário para quem não pratica o mesmo tipo de alimentação
- Rigidez mental e física
- Falta de foco no dia a dia e na vida em geral – Atitude peace and love levada ao extremo
- Anemias que nas mulheres podem resultar em falta de menstruação
Estas situações revelam necessidade de fazer ajustes naquilo que se come e da forma com se come. Pessoas com mais experiência deverão ser consultadas por exemplo para se obter uma maior clarificação destes processos que podem ocorrer.
Aviso: as alimentações tradicionais não são perigosas o perigo está em quem as faz e como as faz.
Todas as alimentações podem ter factores de risco até mesmo a alimentação dita tradicional quando seguida de forma incorrecta – Uso excessivo de sal, açúcar, gorduras saturadas e proteína animal.
A mudança ou a manutenção de um padrão alimentar deve resultar de uma acção consciente e não de modas. É importante para quem o faz – ou seja, para quem se alimenta do que quer que seja, entenda que a alimentação é uma ferramenta extremamente poderosa e que o provérbio chinês de que “aquilo que não faz mal também não pode fazer bem” seja mantido presente.
Um padrão alimentar não é uma fórmula rígida que contaria a própria vida que está sempre em mutação. Manter este padrão flexível em conjunto com uma mentalidade receptiva é a forma mais orgânica de cada ser humano na sua individualidade acompanhar e participar no seu próprio processo de evolução.
Se tivesse que ser imparcial e recomendar um livro apenas – Healing with Whole Foods: Asian Tarditions and Modern Nutrition – Paul Pitchford
