Na China existem várias histórias relacionadas com o facto de se ser considerado inútil e as suas implicações na longevidade e na realização pessoal.
A mais conhecida conta que um mestre ao passear com um aluno num parque natural apresenta certa árvore como imprópria para consumo. Os troncos eram retorcidos, a madeira de péssima qualidade, cheia de nós e mesmo o odor era nauseabundo.
O mestre declara ao aluno – “Esta árvore é uma aberração da natureza – não serve para nada!”
Mais tarde durante o sono o mestre é visitado pela própria árvore que se mostra ofendida e que afirma que o facto de naquele parque natural ela ser a árvore mais velha é pelo facto de ser considerada inútil pelo homem.
E enquanto as outras árvores eram cortadas para serem utilizadas o simples facto de ela ser inútil era garantia que ninguém a iria cortar.
Nos dias de hoje esta é uma arte esquecida.
Esse esquecimento provoca
- Gastos de tempo a tentar fazer algo ou a produzir algo que não somos competentes. E em que toda a gente é prejudicada com isso, alunos, pacientes e nós em gasto de tempo e energia.
- Esgotamentos a tentar fazer tudo aquilo que surge típico dos terapeutas, designers, freelancers – as chamadas profissões de risco.
- Insatisfação e falta de tempo para fazer aquilo que realmente é importante. Faz-se tudo, mas fica sempre algo por fazer.E o que foi feito foi com uma qualidade duvidosa.
Ao longo do tempo tenho aprendido a tornar-me inútil em algumas áreas em que sinto que existe alguém que o pode fazer melhor que eu.
Por exemplo:
Deixei de fazer emagracimentos rápidos em acupuntura ou de dar aulas em que o tema me implica estudar ou a investir demasiado tempo em assuntos que não estão diretamente ligados com aquilo que faço.
Algumas vantagens de se tornar inútil.
- Podemos explorar a fundo o nosso trabalho e ficar ainda mais competentes naquilo que fazemos. Ao longo deste tempo tenho tomado decisões difíceis de recusar locais de ensino, aulas ou locais de terapias. Mas essas decisões tornaram-se sempre a longo prazo um ganho no meu tempo e na resultado final do que faço.
- Investimos em qualidade, em nós, na nossa missão não na quantidade variada de tarefas que nos afastam mais do que importa realmente.
- Auxiliamos colegas que podem estar sem ocupação e fora do círculo onde nos encontramos
- Estamos a melhorar a qualidade de ensino dos locais onde trabalhamos trazendo elementos com mais qualidade a esse locais.
- Estamos a ser sinceros connosco com os estabelecimentos de ensino e com os pacientes/clientes/alunos
Existem no entanto medos alojados no tutano de quem trabalha em áreas instáveis.
Estar a recusar uma oportunidade de mais liquidez – e nesta altura de crise é uma loucura.
A entidade à qual recusamos dar aulas nunca mais nos contactar
De ser passado à frente
Ficamos com mais tempo livre e agora?
…
Três regras que achei úteis neste processo de se tornar inútil
- Aprender a delegar e ter uma carteira de colegas que fazem melhor que nós as tarefas propostas.
- Só se deve aceitar uma tarefa em que a nossa competência é baixa se existir o desejo de se tornar uma área de mestria – a ficarmos mais tarde mesmo bons nisso. E ai estuda-se, reflete-se pratica-se, talvez alguma formação adicional e é uma questão de tempo.
- Pagar a alguém para fazer tarefas que não sabemos ou que nos leva demasiado tempo a executar, contabilidade, gestões de sites e questões informáticas, processamento de texto, reparação de eletrodomésticos, canalizações.
Um dos possíveis caminhos:
Identificar tarefas que pode delegar
Pensar quem pode fazer melhor o que faz nas tarefas que não o preenchem
Ter conscientemente a coragem de dedicar-se ao que realmente interessa – à sua paixão e à sua arte.
Tens toda a razão, Lourenço. Quantas vezes eu, que tenho uma actividade freelance, recusei um trabalho com uma sensação meio angustiante meio medrosa, a pensar que estava a cometer um grande erro. Mas o facto é que não estava. E quando aceitei sem pensar nas consequências que o excesso de trabalho e/ou dificuldade me iriam trazer a nível de noites mal dormidas, comida desregada e ausência de vida social, arrependi-me amargamente. Porque afinal, mesmo quando recusamos, se somos um bom profissional, seremos novamente contactados na próxima oportunidade!
Belo blogue e excelentes posts, by the way!
Obrigado pelo teu comentário Ana,
Todos aprendemos a ir o mais longe possível mas ninguém nos ensina onde devemos parar e respeitar os nossos recursos.
Excelente. Gosto muito da forma profunda que a simplicidade com que escreves nos permite atingir ao ler-te. Obrigada Lourenço e continuação de uma boa vida
Obrigado pelo teu comentário Ana – e vi depois, obrigado também por partilhares o material que escrevo. Até breve.
Fez-me todo o sentido, hoje, agora neste momento. Obrigada