Nota: Este é um “Guest Post” escrito por Silvia Romão – Blog 30 dias para conhecer Portugal.
Há uns dias iniciei uma viagem por Portugal. São trinta dias seguidos para conhecer melhor este rectângulo na ponta da Europa e escrever sobre o assunto.
Neste âmbito, a semana passada propus-me a uma caminhada pela serra da Lousã. Normalmente estou à vontade para me fazer à montanha sozinha. Tenho alguma experiência em escalada e montanhismo. E este percurso anunciava-se fácil. Coisa para durar umas duas horas.
No início o trilho oferecia uma estrada larga, bem definida, com sombras e fresco. Foram dez minutos neste cenário até encontrar o rio. A partir daqui começou a subida. Nada de especial. Depois um pouco mais íngreme. Fazível. Ainda mais íngreme. E uma hora depois já tinha de usar três apoios (dois pés e uma mão) para trepar. Haviam pedras altas e rochas incontornáveis. Se o percurso está classificado com dificuldade média, esta subida há-de acabar não tarda, pensei. E acabou. Uma hora e meia depois para dar lugar a uma descida acentuada e de cascalho que me fazia escorregar a cada passo. Meia hora a deslizar encosta abaixo. Terminou. Outra subida. Desta vez de terra batida mas bastante inclinada. Mais um hora. Já ia com as duas horas que tinha previsto e mais meia quando finalmente cheguei à aldeia de xisto. Linda. Mágica. Em ruínas.
Parei por momentos para beber água. Continuei enquanto trincava uma tosta. Talvez me tenha distraído com a tosta, com a aldeia ou com os meus pensamentos, quando dei por mim já não havia sinais do trilho. Não foi muito tempo que estive desatenta, mas dado o meu inexistente sentido de orientação foi o suficiente para me perder.
Tinha três hipóteses:
- Aventurar-me por um outro caminho de pé posto que havia ali ao lado, correndo o risco de me perder ainda mais para dentro da montanha.
- Seguir pela estrada asfaltada sabendo que teria 18 quilómetros pela frente atá ao local onde tinha deixado o carro.
- Regressar pelo trilho que tinha feito, conhecendo as dificuldades que já me tinham sido apresentadas no caminho até ali.
Uma viagem que iria terminar em meia hora, perspectivava-se agora bem mais longa.
Nos caminhos que já percorri por essas montanhas, sempre tive dificuldade em lidar com as subidas. Olho para elas e acho que não sou capaz, as minhas pernas vão ceder, vai faltar-me o fôlego. Sofro por antecipação. É uma espécie de vertigem mas ao contrário.
O que me fez optar por voltar pelo mesmo caminho foi exactamente o facto de ter passado tanto tempo a subir. Era quase sempre a descer, havia de ser rápido. As subidas que agora iam ser descidas não deviam ter sido assim tão complicadas porque afinal eu tinha-as conseguido fazer.
Três dificuldades: Algum cansaço, sol abrasador e falta de água.
Avancei. Ficar ali parada é que certamente não me ia levar de volta ao início.
Nestes passos de regresso percebi que afinal a subida que eu tinha empreendido era mesmo difícil e demorada. O que tornou a respectiva descida também ela um desafio. Espantei-me de a ter conseguido fazer e quase que me alegrei pela forma que o destino tinha arranjado para me mostrar a real dimensão das minhas capacidades físicas.
A partir daqui começaram a encaixar-se algumas conclusões.
Enfrentar a adversidade da montanha é como concretizar um sonho ou perseguir uma paixão. Se não, vejamos:
Corra melhor ou pior estamos naquele percurso porque escolhemos. Os nossos sonhos, tal como os caminhos, acontecem porque demos o primeiro passo. Seja para tomar contacto profundo com a natureza e paisagens que só estão acessíveis através de caminhos de pé posto ou para correr atrás de uma paixão, temos de decidir que queremos fazê-lo. E a seguir temos de agir.
Mesmo com as adversidades e dificuldades próprias de quem decide arriscar, o resultado é sempre compensador. A concretização de um sonho pode falhar. Mas a maior frustração vai para quando nunca se tentou. Tal como uma caminhada. Há locais e paisagens que nunca conheceria se nunca tivesse penetrado no coração de algumas serras por veredas onde só cabem as minhas botas de caminhada. As aldeias, os riachos e as árvores que vi, os sons, e os cheiros da montanha dificilmente os teria experimentado se tivesse optado por não sair da comodidade do carro na estrada asfaltada.
Quando começamos a nossa viagem, seja ela a busca de um sonho ou por trilhos sinuosos de uma serra, é fundamental irmos estabelecendo pequenos objectivos que vamos celebrando como grandes vitórias até à nossa meta final. Por vezes a distância a percorrer até ao destino a alcançar é longa e esse facto pode ser bastante desmotivador. No meu caminho de regresso, cansada, sem água e com o sol a queimar pensava: é só chegar ao cimo daquela ladeira e descanso, se conseguir passar aquela curva, depois o caminho até à ruína é mais fácil ou no final deste destrepe há o rio, posso refrescar-me. E assim sucessivamente.
Devemos focar-nos no momento presente. No meu percurso de regresso houve uma altura em que dei por mim a escorregar várias vezes e a desiquilibrar-me. Abrandei e pensei que arriscar-me a torcer um pé não podia ser uma hipótese. Por isso trouxe mais atenção à minha passada, abrandando o ritmo e assegurando-me que colocava os pés em locais firmes. Abandonei a ansiedade e a urgência de chegar. Por vezes, ao decidirmos concretizar um sonho deixamos a nossa mente pousar num futuro onde o caminho já foi percorrido. O futuro é algo que ainda não existe e se desviarmos a nossa atenção do que estamos a viver no presente corremos o risco de que nunca chegue a existir.
Calar as vozes traiçoeiras. É importante reconhecermos quando as nossas vozes internas estão apenas a tentar boicotar-nos. Muitas vezes essas vozes são apenas os nossos medos infundados. A dada altura do meu caminho, no início de uma subida inclinada e sem sombras, surgiram vozes na minha cabeça que repetiam constantemente: “Não tens pernas para isto. Estás exausta. Não tens água. O sol que está vai acelerar a desidratação. Pára.” Estas vozes somos nós mesmos. Como tal temos o poder de as controlar. Temos autoridade sobre elas. Foi assim que decidi por um ponto de ordem e silenciá-las. Nesse momento percebi que estava a viver uma experiência única que podia aproveitar para o texto que o Lourenço me tinha desafiado a escrever para o blog dele. E comecei a fazer associações. As vozes deixaram de se fazer ouvir.
Chegar ao final e fazer uma retrospectiva. Tomarmos consciência do nosso valor real. Arriscar a sair da zona de conforto, concretizar um sonho é um grande feito. A modéstia excessiva, a falta de valorização das nossas verdadeiras capacidades traem-nos tanto quanto a presunção exagerada. Há que gozar o momento em pleno, sermos honestos conosco mesmos. Nesta minha experiência tive a oportunidade de perceber que as minhas capacidades físicas e de determinação eram muito mais fortes do que eu julgava. Mais, ao fazer o caminho de regresso, o destino demonstrou-me que tenho muito mais potencial para fazer subidas ingremes do que alguma vez eu tinha julgado. Olhando para trás agora parece-me que nem foi assim um esforço tão grande como na altura eu quase me convenci que era.
Viajar sem grande planos por este país e partilhar esta experiência através da escrita é o que estou a fazer a tempo inteiro actualmente. A realizar este sonho. O caminho que tenho feito para chegar aqui é muito semelhante à minha experiência na serra da Lousã. Os métodos aprendidos pela experiência da escalada e da caminhada têm sido boas ferramentas nesta epopeia. Afinal na vida tudo se toca.
Inconformada com a sua vida profissional, Silvia Romão trocou o seu trabalho das 9h às 19h por uma vida livre de horários. Atualmente ensina Chi Kung, viaja e escreve sobre as suas experiências.
