Donos do Tempo

2 de Janeiro de 2006.

Silvia: Acordo pelas 7h30 da manhã como todos os dias desde há muitos anos. No início porque tinha de ir para a escola. Mais tarde porque tinha de ir para o trabalho que, graças ao tempo que passei na escola, consegui arranjar. Hoje, pelo hábito instalado no corpo.

É o primeiro dia em que não trabalho. Voluntariamente. Estou a experimentar pela primeira vez a sensação de não ter nenhum horário a cumprir.

Lourenço: Sabes que eu fiz isso 9 anos antes e tirei dois meses para saber o que queria fazer da minha vida. E tive de criar uma rotina. E também me levantava às 7:30 para me manter ocupado. Deitava-me a horas e levantava-me a horas. Foi para mim importante que isso acontecesse assim. Criou-me uma estabilidade no processo.

Silvia: No início de 2005 tinha decidido reclamar o meu tempo para mim. Ainda não sabia bem como mas sabia que não queria continuar a vender o meu tempo a terceiros daquela forma tão drástica. Afinal nem tinha tempo para aproveitar os benefícios que vender o meu tempo me trazia.

Um ano de preparação para chegar a este dia. E, agora que era real, eu estava como que paralisada. De pijama sentada no sofá da sala com a cabeça apoiada nas mãos. A tomar consciência de que pela primeira vez em tantos anos não tinha nenhuma reunião agendada, nenhum prazo para cumprir, ninguém à minha espera. Eu, que até ao dia 23 de Dezembro tinha sido uma espécie de workaholic.

Lourenço: Também me lembro desse dia mas não fui eu que tinha a cabeça apoiada nas mãos eram os meus pais que viam o filho de 27 anos voltar a casa e a pedir dois meses sem fazer nada. Havia um misto de preocupação e terror no ar.

Silvia: Percebi que pela primeira vez era totalmente dona do meu tempo. E não sabia o que fazer. Era como se tivesse ganho a lotaria e agora não tinha ideia do que fazer com tanto dinheiro.

Entrei em pânico!

Lourenço: Sabes percebi que a forma de não entrar em pânico são as rotinas que referi acima ajudam a criar uma câmara e descompressão. E uma das coisas que fazia religiosamente era – vestia-me sempre e nunca ficava de pijama em casa.

Silvia: E neste estado me mantive ainda durante alguns dos meses do meu ano sabático. Tinha todo o tempo do mundo mas tinha a sensação de que não tinha tempo para nada.

Lourenço: Eu ao fim de dois meses cumpri a promessa feita aos meus pais e voltei a procurar trabalho. Mas pareceu que a energia que ganhei nesses dois meses se desvaneceu em entrevistas e visitas às empresas.

No fim dessa semana decidi que queria mudar de carreira e não queria manter a minha antiga profissão.

Silvia: A agenda tornou-se um verdadeiro campo de batalha entre compromisso assentes, riscados, alterados, com setas para outras horas, outros dias.

Inevitavelmente instalou-se a frustração. A sensação de que era completamente inútil. Não conseguia fazer nada do meu tempo. Não estava a ser produtiva.

Lourenço: Para quem estava habituado a um regime de quase 10 horas laborais o trabalho que encontrei era simples. Era numa escola, trabalhava como vigilante apenas durante os intervalos e tinha o resto do tempo para… fazer nada. Nesse “nada” pude fazer uma descompressão da minha antiga profissão que durou quase dois anos. Além disso coloquei a leitura em dia.

Silvia: Felizmente também chegou o Verão. E com ele o sol e a praia. Três conceitos que adoro.

Foi graças a estes novos elementos que percebi como pode ser difícil sermos donos do nosso tempo. Que me tinha proposto a parar para perceber o que fazer com o meu tempo sem ter de abdicar dele.

Lourenço: O que me possibilitou perceber que podia fazer algo e que podia ser dono do meu tempo foi quando o Curso de Medicina Tradicional Chinesa surgiu na minha vida. Eu que sempre me tinha recusado a fazer um curso superior por não encontrar nada que me motivasse percebi que afinal era possível estudar um assunto motivante e eventualmente se terminasse ter algo que me preenchesse.

Silvia: Não estava a ser produtiva? Pois não. Mas apenas porque estava a desperdiçar aquele ano em ansiedades e frustrações irreais. Era suposto não ter obrigações. O objectivo era parar para conseguir estar atenta a tudo o que me despertasse curiosidade. Perceber o que queria fazer, o que me apaixonava. Para ter de deixar de vender o meu tempo a um preço tão elevado para mim.

Peguei nos livros, nas revistas e no leitor de mp3 e fui para a praia. Era o meu ano sabático, já tinham passado quase seis meses, tinha de o aproveitar antes que acabasse. Li, escrevi, refleti, observei, ouvi música, estive com velhos amigos, fiz novos. Relaxei.

Acima de tudo aprendi que o tempo é um bem tão precioso que quando está à nossa total disposição temos receio de o usar. Não sabemos como. Nunca nos foi ensinado porque assim que começamos a tomar contacto com ele, somos enviados para a escola onde começamos de imediato a cumprir horários.

Quase um ano. Não para perceber o que iria fazer a seguir mas para me sentir realmente dona do meu tempo. E este foi o meu segundo momento de viragem. Depois de entender a importância do descanso, aprender a ser totalmente responsável pelo meu tempo ajudou-me a chegar ao que sou hoje: a autoridade máxima sobre as horas dos meus dias.

Lourenço: No primeiro dia que iniciei os meus estudos de Medicina Tradicional Chinesa entendi que estava a dar um passo importante e estava a reclamar o meu tempo e a minha independência. O curso demorou cinco anos. Cinco anos em que se sente que é fácil voltar às rotinas laborais antigas só porque é mais simples ou mais rentável. Mas em cada afirmação que fiz no sentido de seguir o que acredito mais e mais o meu tempo se tornou um bem precioso.

Ainda ontem tive de fazer essa afirmação e ainda hoje deparei com essa questão e muito provavelmente amanhã também.

Reclamar o meu tempo para mim não é um dado adquirido. Tal como numa relação é algo que deve ser renovado e afirmado todos os dias como qualquer arte.

Silvia: Experimente

Hoje à noite quando chegar a casa, pegue num papel e num lápis e escreva quanto do tempo que viveu hoje pode reclamar como realmente seu.

De seguida, imagine-se com 24 horas completamente livres de compromissos ou obrigações. Como as passaria? Olhe para o que escreveu e passe à acção. Se uma vida de tempo livre é possível, 24 horas é facílimo de arranjar.

Lourenço: E gosto mais do exercício das três perguntas que me ajuda a centrar e a entender até que ponto o meu tempo é mesmo meu e se a minha energia está a ser direcionada para o que é essencial. Este exercício pode ser revisitado neste post.

One Response to Donos do Tempo
  1. Salome Martins
    January 12, 2012 | 09:34

    Este vosso exercicio deixou-me a pensar… e com vontade de mudar, ou melhor a vontade já existe há muito tempo, mas agora com mais coragem para a concretizar… E o que fazer quando a resposta às 3 perguntas, vem sendo sempre, Viajar, Viajar, Viajar…

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